Conecte-se conosco

Colunistas

Sobre a influência do que é “MA”

Rodrigo Dias

Publicados

em

Vazio é um argumento, uma necessidade primária. Aquele vazio de capela que permite ouvir ecos antes da emissão de qualquer som ou intenção. Em toda sua espacialidade, há vazios que completam.

Esses tais vazios, intervalos, não são lacunas; são berços. Neles repousam a possibilidade de mudanças. Quem anda cheio não entenderá o vazio e tudo que lá habita, sem ser ausência.

A essência está num vão. Procuramos em vão. Talvez porque os olhos estejam abertos, e o coração fechado demais. Apertado, sem espaço para outras crias. Criatura.

Um texto precisa de espaços, uma ideia precisa de espaço, amores necessitam de espaço. Espaço é tempo vazio regido pela presença das interpretações. Para o amante, o espaço entre o seu amor é a certeza que só faz sentido juntos.

Vazio é campo arado. Semeia! Nesse espaço se esparrama. Vai dando a forma que der. O hoje é hoje e nele o futuro é imediato. Pela espera de cada hora. A relação com o tempo mudou. É mais dinâmica.

O passado foi o último instante. Qualquer choro ou apreensão tem que ser breve. A fim de não se encavalar o ciclo. E não bagunçar os tempos: o passado, no passado. O futuro, no futuro. O presente, agora.

O vazio sustenta os desejados respiros. A orientação sem a necessidade da marcação. A intimidade consigo mesmo é estranha, porém reveladora. Se ver fora de si pra si.

O “sujeito” que me vê de fora compreende meus vícios e necessidades. Conhece meus medos e qualidades. Na tela, a gente carrega na cor, nas formas. Quando a pintura, na verdade, só pedia vazios.

Abstrair, fugir de si só para se encontrar. Tem algo de divino nisso. Justamente porque o divino é hiato, ímpar. Sublime.

Vazio só faz sentido se criar um novo signo.

Em tempos de tantas incertezas, os vazios que se formam hão de ser espaços de gestação da transformação silenciosa. Na natureza que se regenera sem tantos ataques, no homem que se modifica; quando se resinifica.

Tenho usado tanto essa palavra: resinificar.

De certa forma, ela guarda em si essa noção do vazio, na medida em que não crio mais, não ocupo ainda mais espaços. Só dou um novo sentido ao que aí está.

Resinificando, criando novos signos.

Ante a criação, o vazio é habitado. Fecundo, é intervalo de gestação.

RODRIGO DIAS é jornalista e poeta, há mais de duas décadas trabalha no mercado de comunicação. Formado em Publicidade e Propaganda, também atua como assessor de comunicação.

Mais lidas