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Não consigo respirar

Rodrigo Dias

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A capacidade de indignação é um valioso termômetro para medir o grau de consciência de um povo. Está sendo assim nos Estados Unidos há mais de uma semana, após um policial branco matar por asfixia um homem negro, George Floyd, na cidade de Minneapolis.

Por mais de oito minutos o policial Derek Chauvin manteve um dos joelhos sobre o pescoço de Floyd, que aos berros dizia: “I can´t breathe” (Eu não consigo respirar). O apelo do homem negro não sensibilizou os policiais.

Ele morreu, mas diferente do que acontece no Brasil, sua morte não virou mera estatística. Manifestações pedindo justiça, punição dos policiais e o fim do racismo tomam os EUA. Além das ruas, este fato já esquenta a eleição presidencial que ocorre neste segundo semestre.

Por aqui, a notícia chocou milhares de pessoas. Ativistas de redes sociais estão por aí gravando vídeo, compartilhando notícias e se posicionando firmemente pelo fim do racismo. As tragédias externas parecem comover mais do que nossas tragédias domésticas com o mesmo pano de fundo.

Como nossa memória é curta e a capacidade de indignação também, vale lembrar que pouco mais de um ano atrás o músico Evaldo dos Santos Rosa foi assassinado na cidade do Rio de Janeiro com oitenta disparos de arma de fogo feito por militares.

Na época, os ativistas de rede social fizeram barulho, compartilharam imagens, textos, vídeos e só. De lá para cá, pouca coisa mudou. O que não mudou é que vidas negras continuaram sendo ceifadas pela atuação do Estado ou falta dela.

A capacidade de indignação do brasileiro é miúda. Quando muito é perfumaria usada para causar uma boa impressão, mas na verdade mascara a realidade dos fatos: que somos ainda um país racista com grande abismo social, e milhares de vidas negras se perdem ora para crime, ora para pobreza, ora pela ausência de equidade.

Entre asfixia e tiroteios, uma notícia – no mínimo esdrúxula – vem da Fundação Palmares. A entidade, originalmente criada para dar voz à negritude através de ações nas mais variadas vertentes, acaba de noticiar por meio do seu presidente, Sérgio Camargos, a criação de um selo a ser concedido pela fundação a fim de restaurar a reputação de pessoas que injusta e criminosamente foram tachadas de RACISTAS.

A notícia, que parece piada de mau gosto, já está sendo questionada pela justiça, como é o caso do Ministério Público Federal. A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão no estado do Rio de Janeiro determinou a instauração de notícia de fato com o objetivo de apurar suposto desvio de finalidade na iniciativa da Fundação Palmares de criar um selo “não racista”.

Na falta de indignação e de ações afirmativas, o racismo cresce. Ele se assenta na cultura de um povo e fica “normal”. Parece acontecer só longe da gente.

Enquanto tudo for considerado “mimimi” ou vitimismo, não vamos conseguir respirar.

 

RODRIGO DIAS é jornalista e poeta, há mais de duas décadas trabalha no mercado de comunicação. Formado em Publicidade e Propaganda, também atua como assessor de comunicação.

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