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Morte profanada

Rodrigo Dias

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O que é a morte?


Dependendo da sua crença, ela ganha significados distintos. Para boa parte das pessoas ela é o fim de um ciclo, passamento da vida. Outros a vêem como uma passagem para outra “vida” do espírito num outro plano.

Tanto num exemplo como no outro, a morte é um acontecimento sagrado. Isso porque faz parte da vida. Principal dádiva que nos é dada. Mas a morte, logo ela, está sendo profanada.

Vem sendo desafiada como em tempos de guerra. Milhares tombam. Crianças, jovens, velhos e adultos. Vidas que subitamente são encurtadas ou tiradas de forma inesperada.

A morte ronda. A cada dia está mais perto, levando conhecidos e parentes. Explicar a morte para uma criança é tarefa difícil; o que dizer, então, num cenário como o atual? Como se dará a relação desses jovens com a morte de agora para frente? Quais serão os traumas a serem superados?

A aceitação da morte não é algo fácil, necessita tempo. Mas numa tragédia como a de hoje, tempo para aceitação é luxo. Um dia desses vi uma entrevista com uma mulher de meia idade do Ceará que pegou Covid e sobreviveu, mas não sem contar com as cicatrizes do luto. Em questão de dias ela perdeu a mãe, o pai, o irmão e o marido em decorrência da Covid. Infelizmente tragédias assim se repetem.

Em condições normais seria necessário encarar a morte com resiliência, para superar a perda de um ente querido minimamente bem, mas esse não é o caso do tempo presente.

Cada morte ocasionada pela pandemia no Brasil deve ser sentida e chorada, sim. Em todas devemos ter, também, um sentimento de indignação. Isso porque em muitos dos casos registrados a morte deixou de ser um processo natural da condição humana e se tornou consequência de atos irresponsáveis ou omissões.

Neste caso, não estamos falando da morte pura e simples, mas, sim, de atentados contra a vida e isto é crime. Quem contribui para a escalada de mortes numa pandemia deve ser responsabilizado.

Não estamos na Idade Média. Portanto, é inadmissível aceitar que as pessoas morrem ou morreram porque tinham que morrer. Muitos morrem por negligência de outros e do Estado, e isso não é natural.

Filhos crescerão sem pais, pais sem filhos. Famílias estão sendo, precocemente, dilaceradas e isso não é normal. Como normal não deveria ser relativizar a morte.

As pessoas não são números de estatísticas que aparecem todos os dias nos jornais. Cada pessoa é uma história, e muitas estão sendo interrompidas pelo descaso, pela ignorância.

O cenário é tão cruel que não há nem tempo para despedida. Quem morre de Covid se vai sozinho. Até neste último ato da vida, a dignidade é roubada e o que deveria ser sagrado ganha ares mais dramáticos.

A pandemia é uma guerra travada há mais de um ano. Contra ela cada um é um soldado. Para ser vencida, é necessário ter comando e estratégia. Com um bom comando se sofre menos e o número de baixas nessa guerra será menor.

Tem um provérbio que diz:

Em águas calmas todos os navios têm um bom capitão.

Só que hoje o mar está agitado e é aí que se mede a destreza de quem comanda.

 

  • RODRIGO DIAS é jornalista e web poeta,há mais de duas décadas trabalha no mercado de comunicação. Formado em Publicidade e Propaganda,também atua como assessor de comunicação.

RODRIGO DIAS é jornalista e poeta, há mais de duas décadas trabalha no mercado de comunicação. Formado em Publicidade e Propaganda, também atua como assessor de comunicação.

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