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A Sereníssima República de Nova Serrana

Osvaldo de Évora

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Diante as várias urgências e descalabros gritantes dos quais vemos todos os dias em Nova Serrana e sabemos de todos eles há décadas e décadas, porém pouco muda, chama a atenção como nos preocupamos pouco ou quase nada com o bem comum e com o meio ambiente.

Vivemos uma cultura, e isso é uma questão nacional, porém muito evidenciada em Nova Serrana, da chamada “preocupação do portão pra dentro” e quase nada do “portão pra fora”.

Nova Serrana é uma cidade que produz e já produziu riquezas e patrimônios inestimáveis, porém o retorno de tudo isso para a sociedade e para o bem comum é ínfimo. Julguem a qualidade de vida que possuímos e comparem com cidades que produzem muito menos e vocês verão uma questão de injustiça social alarmante.

Em meio as trivialidades corriqueiras de uma tarde qualquer em Nova Serrana, decidi me alongar um pouco mais na descrição de elementos que presenciei no cotidiano.

No calor abafado de um inverno atípico, quente e atenuado pela ausência de árvores que contribui para o clima árido e desértico durante as tardes em Nova Serrana, me deparei com algumas cenas dantescas enquanto me dirigia a uma agência bancária.

No percurso fui espectador de uma discussão acalorada entre um motorista de transporte clandestino e um taxista. Uma discussão que quase chegou as vias de fato, com direito a ofensas baixas e ameaças a integridade física. O motivo do entrevero parecia ser porque o taxista estava fotografando o motorista clandestino transportando passageiros. Acompanhei atentamente a discussão até o fim e então prossegui até a agência.

Ao chegar ao banco encontro um caos de proporções inimagináveis, o local se transformara em um canteiro de obras e a fila de pessoas do lado de fora não se movia.  Enquanto isso perdi a conta de quantas pessoas vi entrando sem máscara dentro da agência para utilizarem os caixas eletrônicos.

Motoristas estacionando na vaga para deficiente a todo o momento e de repente um senhor sem máscara na minha frente vira e faz uma reclamação a cerca desses motoristas.

Durante mais de duas longas horas na fila do lado de fora da agência, em meio ao calor seco, fiquei observando a única árvore existente em um raio de quase 300 metros.

A pergunta que fica é porque é que não temos árvores em nossa cidade, e não temos ninguém brigando pelo meio ambiente? Porque nos sujeitamos a uma situação de calamidade pública com nossos córregos que cortam o município, poluídos, verdadeiros esgotos a céu aberto, nenhum cuidado para com suas encostas, em pleno centro da cidade e ninguém apresenta um plano para resolver isso. É lamentável.

Dentro da agência, nenhuma distribuição de senhas, uma verdadeira confusão pela falta de ordem e os poucos funcionários do estabelecimento se perdendo para atenderem os clientes que já esperavam há mais de três horas.

Porque é que ninguém se importa com essa gente, muitas delas que saíram de longe para estarem ali e possuem outros compromissos e afazeres, porque é que ninguém questiona o serviço público e busca uma melhora não apenas para si, mas também para o próximo, para o bem da população?

Encontro a resposta destes mandos e desmandos e descasos populares em algumas semelhanças pontuais entre “A Sereníssima República de Veneza” nome pelo qual a cidade italiana era chamada entre 687 até o ano de 1797, e o arrabalde encrustado em solo acidentado – e sem árvores – no centro oeste mineiro ora chamado Nova Serrana.

Política de pão e circo, oprimidos e opressores, o poder nas mãos de uns poucos, enquanto uma massa bruta move as caldeiras propulsoras de um verdadeiro império, de riquezas e desigualdades. Traços de uma história bem presente.

Devido a sua posição geográfica centralizada, a República de Veneza se beneficiou no comércio e pôde expandir seu poder através da comercialização de sedas e especiarias de Constantinopla e de Alexandria, o transporte de escravos, madeiras e peixes da região da Dalmácia e ferro da região dos Alpes, se tornando o maior porto do mundo.

Localização privilegiada, parceiros comerciais em toda a Europa e norte da África, e o poder político concentrado nas famílias mais nobres da cidade, que direta ou indiretamente influenciavam todas as decisões. Ao final de 1297, o “Grande Conselho”, uma espécie de câmara local, era composto por uma oligarquia de 200 famílias tradicionais.

No meio de tudo isso, em um local onde o capital corria solto, a burguesia se expandia com enorme velocidade. Os burgueses nada mais eram que aqueles que não pertenciam a nobreza, mas que de alguma forma se enriqueciam. Não importa quanta riqueza e influências acumulassem, nunca chegariam ao status dos nobres, porém eram de suma importância para a concentração da grande economia local.

O cidadão comum, que em outras regiões menos abastadas da Europa viviam suas vidas como meros camponeses, e outrora chamados de vassalos, viviam a margem de todo esse festival de riquezas, e sem nenhuma política pública eficiente, que os considerassem e os tratassem como ser humano, e não apenas trabalhadores indigentes. Nenhuma devolução por parte dos nobres e dos burgueses para o bem comum de todos.

Nova Serrana possui localização estratégica no estado e na região sudeste, isso foi um divisor de águas para o crescimento da indústria calçadista e na sua consolidação no cenário nacional e latino-americano. Paralelo a isso a cidade presenciou a perpetuação de uma nobreza e viu se erguer uma burguesia cada vez mais nova e crescente. Mas quais foram as devoluções por parte destes para o bem comum de todos? O que foi convertido para o meio ambiente e a qualidade de vida da população?

Os empresários se comportam como divindades das quais o cidadão comum

lhe deve honras apenas por lhes oferecerem seus empregos.

Nova Serrana se comporta como uma cidade medieval, onde o cidadão comum ainda não é visto como ser humano, e quem está lá no topo da pirâmide não se preocupa em elevar o padrão de vida da cidade.

E ninguém se organiza para defender os direitos de ninguém, só pensam em si próprios.

Em suas grandes pick-ups que ocupam quase as duas faixas da via pública, beberronas de óleo diesel e poluentes, seguem seus caminhos sem se importarem com o meio ambiente e com o próximo.

E assim como Veneza se afunda lentamente em seus canais, a uma velocidade de cerca de dois milímetros por ano, Nova Serrana se afunda tanto mais sobre os valores morais e descasos para com a população.

Nessa sociedade de nobres e burgueses que querem consumir de tudo em excesso e se preocupam apenas em cuidar do portão de casa pra dentro, eu prefiro ser um bom camponês que reconhece a riqueza da sombra de uma árvore, a riqueza mais escassa de Nova Serrana.

OSVALDO CAMPOS MENDONÇA DE ÉVORA é jornalista e escritor, com experiência no jornalismo impresso, no rádio e também em publicidade e propaganda. É um democrata que defende o meio ambiente e a sustentabilidade, que valoriza o diálogo entre os diferentes lados políticos e que ressalta a importância da educação e da ciência.

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