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Não há como explicar o inexplicável!

Willian Barcelos

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Não posso sob nenhum argumento desconsiderar o trágico episódio de suicídio que ganhou as páginas de jornais, rodas de amigos, grupos de debate e de não-debate em nossa cidade. Pois ainda que tenha pensado em falar de imediato sobre o assunto, dada a repercussão da notícia, nada mais prudente que evitar o calor do momento. Inclusive porque o vídeo publicado teve a clara intenção de creditar, exclusivamente, à minha pessoa e aos meus atos parlamentares, tamanha tragédia.

Poderia encontrar justificativas, tentar minimizar, atacar para defender-me, etc. Mas nada disso traria uma vida de volta. Além do mais, de cabeça quente, e sob a influência de pessoas nem sempre bem-intencionadas, o resultado finalístico poderia ser idêntico ao que vitimou Flávio.

Procurei na ciência, na religião, nos amigos e dentro de mim mesmo encontrar a verdade. Pois o fato de não sentir toda essa culpa acabava por tornar meus dias um tanto quanto infelizes. O fato é que os amigos traziam força, buscavam enaltecer o meu caráter, diziam aprovar as minhas ações e que não acreditavam que uma simples fotografia disposta por alguns segundos no telão de um recinto fechado, e com platéia arregimentada pela própria equipe do governo, fosse capaz de desencadear algo assim.

De fato, assimilei as ideias, mas ainda não queria acreditar em tudo que diziam. Pelo simples fato que eram meus amigos, e, portanto, poderiam estar dizendo tudo aquilo para acalmar meu espírito, evitando infortúnios mais lamentáveis. Daí pensei: onde estariam os amigos de Flávio? Aqueles que tanto crucificam o professor. Buscaram acalentá-lo no momento de fraqueza? Buscaram tirar os maus pensamentos de sua cabeça? Ou procuraram atirar mais lenha na fogueira? Poderiam ter dito: “foi apenas uma foto, o casal estava de costas, não foram citados nomes de ninguém, exceto do prefeito. O jurídico disse que não houve nenhum crime. Olha o que os vereadores passaram. Amanhã será um novo dia e ninguém se lembrará mais disso. A gente dá o troco mais na frente, etc.”.

Tive a oportunidade que Flávio talvez não teve. De contar com amigos fiéis. Alguns mais apegados às coisas divinas, disseram: acalme-se, “nenhuma folha seca cai de uma árvore se não for da vontade de Deus”. Procurei na Bíblia tal versículo, mas não o encontrei. Daí descobri que apesar de ter escutado repetidamente esta frase a vida toda, como se fosse algo bíblico, nada mais era que uma passagem do Alcorão, contida na 6ª Surata, versículo 59, de Maomé, que diz: “Ele possui as chaves do incognoscível, coisa que ninguém, além d’Ele, possui; Ele sabe o que há na terra e no mar; e não cai uma folha (da árvore) sem que Ele disso tenha ciência; não há um só grão, no seio da terra, ou nada verde, ou seco, que não esteja registrado no Livro lúcido”.

Apesar de não estar na Bíblia, pelo menos na forma em que está escrita, certamente corresponde a um princípio bíblico, presente em Lucas (12:7), que afirma: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”. Eis a soberania de Deus sobre todas as coisas, inclusive as mais simples.

De posse de ensinamentos religiosos e discursos incentivadores de pessoas próximas, faltava encontrar na ciência qualquer justificativa que viesse a diminuir minha angústia. Para a ciência o suicídio nem sempre deve ser entendido como algo voluntário ou que reflete uma espécie de fraqueza. Estudos publicados pela revista Molecular Psychiatry revelaram que a metade dos casos nos Estados Unidos ocorrem por razões hereditárias, isto é, uma herança que passa de pai para filho. Contudo, especialistas entrevistados pela Folha de São Paulo disseram que a relação entre esse aspecto hereditário e a decisão de pôr fim à própria vida é indireta, não podendo ser exclusivamente atribuída a uma suposta “maldição do DNA”.

Segundo o psiquiatra Carlos Cais a questão é multifatorial, ou seja, “é como a queda de um avião: em geral, ele cai por uma sequência de problemas. Essa coisa de dizer que o sujeito perdeu o emprego e por isso se matou ou se matou porque estava com depressão, nunca conta a história toda”.

Para a pesquisadora Maila de Castro Neves, do Departamento de Saúde Mental da UFMG, “por mais sedutor que seja encontrar culpados, eles não existem. Pois cerca de 90% dos casos de suicídio estão ligados a alguma espécie de transtorno mental, “e é por essa via que os pesquisadores tentam elucidar a associação entre o ato e determinadas predisposições genéticas”. Concluiu.

O certo é que as experiências, boas ou más, e às vezes trágicas, sempre nos levam à reflexão. Espero que a verdade seja um dia desvendada, e enquanto ela não chega, peço perdão ao Flávio e seus familiares diretos, pois talvez tenha sido a gota d’água que faltava em um copo que estava prestes a transbordar.

WILLIAN FERREIRA CARLOS BARCELOS é professor e agente político. Licenciado em História, especialista em Administração Pública, Docência do Ensino Superior, Gestão de Recursos Humanos e Meio Ambiente, mestre em Educação, Cultura e Organizações Sociais.

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