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Idosos e crianças agora são os mais afetados pela Covid-19 no país

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Pela primeira vez desde maio, quando foi iniciado o levantamento, o estudo epidemiológico EPICOVID-19 sobre o coronavírus no Brasil conduzido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) apontou uma maior incidência da doença entre idosos e crianças no último mês. Nas três etapas anteriores, os índices de contaminação eram maiores nos adultos, na faixa etária entre 20 e 59 anos.

Entre os dias 27 e 30 de agosto, foram examinadas mais de 33.250 pessoas em 133 cidades espalhadas pelo país. Conforme os dados, os testes rápidos apontaram que 2,4% das crianças entre 0 a 4 anos estavam contaminadas pelo vírus – o maior número entre todas as idades. Em seguida, aparecem os idosos com mais de 80 anos (2,2% testaram positivo) e entre 70 e 79 anos (2%). Já 1,9% dos pequenos com idades de 5 a 9 anos tiveram a Covid-19 detectada no organismo.

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No início de junho, as faixas etárias mais atingidas pela pandemia eram entre 40 e 49 anos (3,7%), 50 a 59 anos (3,1%) e 30 a 39 anos (3%). Para o infectologista e membro do comitê de enfrentamento à Covid-19 em Belo Horizonte, Estevão Urbano, há duas possibilidades que podem explicar esse novo panorama.

“Primeiro, é que os adultos serem foram os mais expostos ao vírus, seja pela profissão ou a forma de encarar  pandemia, e possivelmente se infectaram primeiro e agora diminuíram os casos entre eles”, acrescenta.

O especialista lembra também que a chamada imunidade de rebanho – quanto um alto número de recuperados da doença reduz a possibilidade de transmissão – pode influenciar nos resultados.

“Não é possível se afirmar com certeza, mas uma parte dessas pessoas, por terem adoecido e se imunizado temporariamente, acabam protegendo os outros”, argumentou.

Uma outra hipótese levantada por Urbano está ligada ao relaxamento do isolamento social por idosos e crianças após a flexibilização das atividades econômicas.

“Antes, esses eram os grupos que se preservavam mais, só que atualmente se vê com frequência idosos nas ruas, que até perderam um pouco do medo do vírus, o que é preocupante. Entre as crianças também, já que os pais acabam ficando desgastados de manterem os pequenos só em ainda, ainda mais com a abertura de praças e clubes, por exemplo”, cita.

Conforme o infectologista, os números também podem ser influenciados pela reabertura das escolas em alguns Estados do país, como Amazonas e São Paulo – o último só liberou as unidades para atividades presenciais de reforço.

“As unidades de educação ainda não estão em condições de serem flexibilizadas. Há uma métrica que é usada no mundo inteiro, de novos casos registrados por dia. Países como a Coreia do Sul só liberou as aulas quando os registros estavam em 5 novos casos por milhão, enquanto Belo Horizonte tem 150 atualmente”, explicou.

Na capital mineira, Estevão Urbano afirma que a liberação da aulas vai colocar nas ruas mais de 200 mil para circularem diariamente.

“Muitas pessoas questionam que, como já abriu praça, feira e bar, poderia retomar as atividades nas escolas. Porém, tem aberturas que impactam menos que outras. Uma feira vai aumentar a circulação em 20 mil pessoas só aos domingos, enquanto que as unidades aumentam esse número em 10 vezes nos dias da semana. Fora aquelas que precisam se deslocar de ônibus, que ficam presas em um ambiente não ventilado por muitas horas do dia”, exemplifica.

Negros e pobres mais afetados

A quarta fase da UFPel confirmou uma questão que já preocupava os especialistas antes da chegada da pandemia no Brasil: os dados reforçaram que pretos, pardos e pobres têm uma maior chance de serem tem uma chance ainda maior de serem contaminados pela doença. Nesta etapa, a prevalência do vírus foi de 1,2% entre negros e 1,7% nas pessoas que se consideraram pardas – no fim de junho, o índice chegou a 4,5%. Nos brancos, o número é de 1,1%.

Já entre os 20% da população mais pobre, a porcentagem chegou em 1,9%, a mais alta de todas as características pesquisadas. Nos mais ricos, só 0,7% estavam contaminados pelo vírus da Covid-19.

“Isso acontece por questões locais, que dificultam o distanciamento. É mais difícil manter as pessoas isoladas em casas com um mais pessoas, cômodos menores e às vezes até coladas umas nas outras, como acontece nas favelas e aglomerados”, afirma o infectologista Estevão Urbano.

Morador do aglomerado da Serra, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, o conselheiro tutelar Rogério Rêgo é um exemplo das dificuldades de quem vive nas periferias. Ele teve todos os sintomas da doença, mas não conseguiu realizar o exame no posto de saúde.

“Apenas me deram 10 dias de atestado com recomendação expressa de isolamento em casa. Fiquei muito preocupado, já que moro mais uma criança e dois adultos. Estava praticamente o tempo todo no quarto. O pior foi o psicológico”, conta.

No início, o conselheiro pensou que fosse uma dengue, mas o resultado do teste foi negativo. “Quando saiu o exame, eu quase pirei. Toda noite pareceria que se eu dormisse, não acordaria no outro dia, um sufoco total. Sofri uns 20 dias em casa”, relata.

Pandemia em desaceleração

Outra conclusão foi em relação à desaceleração da pandemia devido à menor prevalência da Covid-19 entre os voluntários. Segundo o estudo, os anticorpos contra a doença são detectáveis apenas por algumas semanas, o que explica a redução dos números.

“As infecções mais antigas podem já não ser identificadas pelo exame. Isso vem acontecendo também em diversos países. Muitas pessoas que foram infectadas há mais tempo passaram a apresentar resultados negativos no levantamento atual”, diz o coordenador geral do estudo, Pedro Hallal.

Já o coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, Domingos Alves, não concordam com essa afirmação.

“Para mim, essa é uma conclusão precipitada em vários sentidos. O fato de encontrar uma prevalência menor de anticorpos entre a população testada não significa que houve uma desaceleração, mas sim que as pessoas podem ter perdido a resposta imune no corpo. Outro ponto é que há um aumento das notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave nos boletins do governo, o que pode incluir novos casos de coronavírus”, finaliza.

Fonte: Por Lucas Morais – O Tempo

Foto: Imagem ilustrativa Web – Creviva

 

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