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Fim do auxílio emergencial: beneficiários temem que 2021 seja ainda mais difícil

Israel Silveira

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Segundo especialistas, aumento da pobreza e desaceleração da economia são esperados com o cancelamento do benefício

No início da pandemia, a cabeleireira Marilda Oliveira, 51, perdeu clientes, não deu conta de pagar o aluguel e precisou fechar o salão de beleza que tinha em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, para começar a atender em casa a pouca freguesia que restou. O marido dela, motorista de aplicativo, também viu a renda cair, e o casal passou a contar com o auxílio emergencial, pago pelo governo federal, para quitar as contas. Para Marilda, 2020 foi um ano difícil, mas a chegada de 2021 a preocupa ainda mais, devido ao fim do pagamento do benefício neste mês.

“As contas não param. Água, energia, aluguel, alimentação, tudo subiu. A luz está vindo um absurdo, porque estou atendendo em casa, e os clientes são poucos, ninguém está tendo dinheiro. Vendi linguiça e queijo na pandemia e foi o que segurou, senão eu teria que voltar para a casa dos meus pais no interior. O auxílio ajudava a pagar as contas e vai fazer muita falta”, conta Marilda, emocionada. Ela tem distribuído currículos, mas ainda não conseguiu trabalho. “Eu acho que deveriam continuar com o auxílio até a pandemia estabilizar e sair a vacina, porque tem muita família desempregada”, diz.

A cuidadora de idosos Lidiane Muniz, 32, está sem ocupação desde o início da pandemia e, na casa onde vive com o marido e os três filhos, o sustento vem do salário mínimo do companheiro e do auxílio emergencial. “Se tirarem o benefício, vamos ficar numa situação crítica. O auxílio estava ajudando a pagar luz, água e aluguel e a colocar comida dentro de casa. Olha o preço dos alimentos, nós vamos viver como?”, questiona.

O auxílio emergencial começou a ser pago em abril deste ano. Foram cinco parcelas de R$ 600 e quatro de R$ 300, uma quantia total de aproximadamente R$ 300 bilhões que alcançou mais de 67 milhões de brasileiros. O benefício impulsionou o consumo das famílias e teve um papel importante na recuperação econômica do país no terceiro trimestre, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 7,7% em comparação com os três meses anteriores.

Além disso, o auxílio contribuiu para a redução da pobreza no país, ainda que temporariamente. Entre agosto de 2019 e agosto de 2020, a taxa de pobreza no conjunto das regiões metropolitanas caiu de 19,1% para 15,9% — sem o auxílio emergencial, ela teria subido para 28%, de acordo com uma pesquisa da PUC-RS, do Observatório das Metrópoles e do Observatório da Dívida Social na América Latina. O número de pessoas em situação de pobreza nas metrópoles, que no último agosto era de 13,2 milhões, seria de 23,3 milhões.

Para 36% das famílias que receberam pelo menos uma parcela do benefício neste ano, o auxílio emergencial é, atualmente, a única fonte de renda, segundo um levantamento do Datafolha divulgado neste mês.

“O fim do auxílio vai ter um impacto negativo sobre o consumo das famílias e representar, no mínimo, uma desaceleração muito forte no ritmo da recuperação econômica que estamos experimentando. Esse auxílio, para muitos, representa a totalidade da renda. Com o fim, muitas pessoas vão ficar com renda próxima a zero e, certamente, isso vai ter efeitos muito deletérios sobre a pobreza”, afirma o economista e professor da Fundação Getulio Vargas, Mauro Rochlin.

Para o professor, o que o governo já deveria ter feito é dar um foco mais certeiro na concessão do benefício, de forma que as pessoas que precisam continuassem a receber. “O fim do auxílio vai ter um efeito muito ruim, mas isso poderia ser minimizado se a política tivesse calibrado a mira de forma a tentar excluir do auxílio aqueles que tivessem recuperado o emprego e mantido quem de fato está em situação de extrema necessidade”, pontua.

Segundo ele, caso o país continue se endividando, o risco é de inflação e taxas de juros mais altas, o que compromete a renda das famílias e dificulta o consumo e a retomada do emprego.

Na avaliação do coordenador do curso de ciências econômicas e coordenador geral de graduação do Ibmec-BH, Márcio Salvato, diante deste cenário, o governo deveria facilitar o acesso a crédito no país. “O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deveria ativar o crédito, deixar acessível e barato para que os empresários pudessem fazer a recuperação de suas empresas e aumentar a oferta de empregos”, diz. O Brasil encerrou novembro com 14 milhões de desempregados, um aumento de 2% em relação a outubro, segundo o IBGE.

Projeto de lei busca prorrogação do auxílio

No Congresso, estão em tramitação propostas para a prorrogação do auxílio emergencial — a nona e última parcela, para nascidos em dezembro, será paga nesta terça-feira (29). O projeto de lei 5.495, que tramita no Senado, prevê que o pagamento das parcelas de R$ 300 até março de 2021. Já o projeto de lei 5.494 propõe a concessão do benefício, em parcelas de R$ 600, ao longo do primeiro semestre de 2021.

O presidente da República, Jair Bolsonaro, disse neste mês que o pagamento não será estendido. Ele também descartou a criação de um novo programa de distribuição de renda, o Renda Brasil, e afirmou que a ideia é aumentar “um pouquinho” o Bolsa Família.

Questionado pela reportagem sobre a possibilidade de ampliação do auxílio emergencial e sobre o que será feito para minimizar os impactos econômicos da pandemia, que está em recrudescimento no Brasil, o Ministério da Economia disse que as perguntas deveriam ser encaminhadas ao Ministério da Cidadania. A pasta não respondeu os questionamentos da reportagem.

  • Fonte O Tempo
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