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Eleições

Eleitorado mais velho, escolarizado e feminino definirá futuro das cidades em MG

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O eleitorado mais velho, escolarizado e feminino já registrado na história irá definir nas urnas, em novembro, os rumos a serem tomados pelos 853 municípios de Minas Gerais nos próximos quatro anos. Os detalhes desse fenômeno são o tema desta série de conteúdos que abre a cobertura das eleições 2020 nos veículos da Sempre Editora.

Pouco mais de 15,8 milhões de pessoas estão aptas a votar e serão as responsáveis por escolher os próximos vereadores e prefeitos no Estado. A análise dos dados cadastrais da Justiça Eleitoral revela que esses cidadãos estão mais concentrados nas faixas etárias dos 35 aos 59 anos (45%), no gênero feminino (52%) e nos níveis fundamental incompleto (27,3%), médio completo (21,8%) e médio incompleto (17,9%) do ensino formal.

O que mais chama atenção quando se analisa o conjunto do eleitorado é a profunda mudança desse perfil no período relativamente curto desde as eleições municipais do ano 2000 – as primeiras com tais informações catalogadas detalhadamente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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Nessas duas décadas, o percentual de eleitores analfabetos ou apenas aptos a ler e escrever caiu para menos da metade no Estado (de 27,8% para 13,4%). Simultaneamente, a parcela dos que já haviam concluído ou ao menos iniciado o ensino médio quase dobrou (dos 20,4% para os 39,8%).

“Eleitores com renda e escolaridade mais altas tendem a ser mais politizados, em um sentido neutro. O que isso significa? Que eles acompanham mais as questões políticas e têm uma taxa de votação mais alta. Lembrando que o voto é facultativo na maioria dos países democráticos, mas mesmo aqui, onde ele é obrigatório, nem todo mundo comparece às urnas”, resume Adriano Gianturco, professor de Ciência Política do Ibmec.

Em relação a idades e gêneros, o perfil do eleitorado mineiro tem evoluído de maneira bastante alinhada a tendências mais amplas e já conhecidas da demografia brasileira, como o envelhecimento geral da população e a maior presença de mulheres a cada faixa etária mais elevada.

Nestas eleições municipais de 2020, em especial, destaca-se a baixa participação das camadas mais jovens no processo eleitoral. E isso não se deve apenas a aspectos demográficos.
Se no início do milênio os adolescentes e jovens de até 24 anos representavam mais de um quinto do eleitorado (22%), essa parcela agora corresponde a somente 12,5% da população habilitada ao voto.

Em termos absolutos, o eleitorado jovem diminuiu de 2,7 milhões para 1,9 milhão de pessoas ao longo das duas décadas. Mas é interessante observar que, enquanto o número de votantes caiu 26% no período, a redução populacional foi de apenas 10,2% nessa faixa etária, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Quando analisados separadamente os menores de entre 16 e 17 anos, cuja participação é facultativa no Brasil, Minas terá um recorde negativo nestas eleições. A parcela voluntária da juventude chegou a representar 2,9% do eleitorado em 2004, quando 390 mil adolescentes se cadastraram para votar, mas agora caiu para apenas 0,58% do total, com menos de 92 mil títulos emitidos.

No outro extremo, é interessante observar que os idosos de 70 anos ou mais correspondem agora a 10,6% do eleitorado mineiro (quase 1,7 milhão de pessoas), enquanto no início do milênio respondiam por apenas 5,9% dos títulos habilitados (725 mil).

Como o voto também é facultativo nesta faixa etária, resta a expectativa quanto ao nível de comparecimento às urnas nesta edição no contexto da pandemia do novo coronavírus, uma vez que os idosos fazem parte do principal grupo de risco da Covid-19.

“O país cada vez mais terá que conviver com demandas de uma população mais envelhecida. E o momento eleitoral é especialmente fértil para esse debate. Na prática, significa que discursos potencialmente capazes de impactar certas faixas etárias serão mais utilizados. É uma mudança demográfica com consequências eleitorais e de políticas públicas”, avalia o cientista político Paulo Roberto Figueira Leal, da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).

Quanto à participação por gênero, os dados revelam que as mulheres terão o papel determinante nos maiores polos de Minas Gerais, pois são maioria em todos eles.

A parcela feminina do eleitorado aumentou de 50,2% no início do milênio para 52% neste ano. A variação parece pequena, mas reflete um acréscimo de 2,1 milhões de eleitoras nesses 20 anos e uma diferença atual de quase 700 mil votos a mais do que os homens.

Como as disputas deste ano são locais, há de se ressaltar a divisão praticamente igualitária em relação ao total de municípios em Minas, com o eleitorado feminino sendo maioria em 431 deles e minoria em outros 418 – quatro cidades (Arantina, Coronel Murta, Pavão e Senhora do Porto) têm exatamente o mesmo número de eleitores de cada gênero.

A maioria masculina, no entanto, é absolutamente restrita às cidades de pequeno porte. O eleitorado feminino é majoritário em todos os 71 municípios com mais de 50 mil habitantes, incluindo, portanto, os nove grandes polos onde poderá haver segundo turno: Belo Horizonte, Uberlândia, Contagem, Juiz de Fora, Montes Claros, Betim, Uberaba, Ribeirão das Neves e Governador Valadares.

Na capital, por exemplo, as mulheres respondem por 54,5% dos títulos habilitados, superando os homens em mais de 173 mil votos. Isso não significa, porém, que a maioria resulte em uma pauta unificada ou no aumento da representação feminina nos cargos eletivos.

“O universo da política é muito masculino, mesmo com todas as transformações. As mulheres hoje são maioria na universidade, na sociedade, estão presentes em todas as profissões, mas o mundo da política ainda é muito refratário a elas […] Eu tendo a achar que as mulheres se beneficiaram dessa recente onda ‘antipolítica’, porque de alguma maneira ela abre o sistema para a entrada de novos atores”, analisa Marta Mendes da Rocha, cientista política da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).

Cabe ressaltar que a classificação de gênero em masculino ou feminino é autodeclaratória e inclui as pessoas transexuais, autorizadas desde 2018 pelo TSE a usar o nome social no título de eleitor. Em Minas Gerais, o número de documentos com a nova identificação aumentou de 647 para 1.001 nesse intervalo de dois anos. Já as pessoas que não informaram o gênero representam 0,043% do eleitorado (6.901 pessoas).

Fonte: Por Cristiano Martins e Pedro Augusto Figueredo –  O Tempo

Foto: TRE-MG

 

 

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