Sarau Literário
CRÔNICA DE BOTECO (Sobre saúde pública)
- POR ISRAEL SILVEIRA
Certa vez, em uma cidade do interior de Minas Gerais, na primeira segunda-feira após o feriadão de Carnaval, a UPA estava completamente abarrotada de pacientes à espera de atendimento. Todos já haviam passado pela triagem, ostentando aquelas pulseirinhas coloridas que mais pareciam alegorias carnavalescas — ou a liberação do all inclusive de um resort na Bahia, adquirido em 36 suaves parcelas por meio de uma agência de viagens.
Mas voltemos às triagens: dor de barriga, insolação, desidratação, alergias, viroses, intoxicação alimentar, bicho geográfico, infecções de mucosa — e o que não poderia faltar: a ressaca da “marvada da cachaça”.
Entre cochichos e semblantes sofridos, havia um consenso quase científico entre os pacientes: o mais importante da consulta era sair com um atestado de cinco dias. Quem sabe, juntando com a semana de Carnaval… xeque-mate! Uma quinzena já estaria garantida.
O problema é que basta um começar a reclamar para que tudo vire caos.
O paciente que na triagem declarou dor de barriga agora queria alterar o diagnóstico para desidratação — parecia mais “forte”.
Outro exibia no braço esquerdo uma coleção de pulseirinhas: da UPA, do Padre Libério, da Bahia, de Nossa Senhora Aparecida, do Padre Cícero e do Senhor do Bonfim. Dizia que era simpatia — quando a fita arrebentasse, o pedido seria atendido.
Já passava do meio-dia, e as reclamações aumentavam — muitas delas usando o nome de Deus em vão.
Uma, duas, três, quatro… vinte, cinquenta reclamações.
E Deus, lá do céu, apoiado em seu cajado, observava. Se antes as queixas eram sobre a demora, agora eram sobre os médicos, que “não estavam atendendo direito”.
Foi então que chamou Jesus, que descansava em uma rede. Na noite anterior, havia sido designado para assistir ao desfile dos Acadêmicos de Niterói, que “homenageou” o Presidente Lula.
Jesus, num ímpeto quase de juízo final, mexeu os pauzinhos e rebaixou a escola de samba. E ponto final.
— Jesus, chega mais! — chamou Deus.
— Preciso que você vá à UPA daquela cidade. Mesmo sem festejar o Carnaval, recebeu os efeitos colaterais da região. Veja o que pode fazer para amenizar o “sofrimento” daqueles pacientes… nada que um atestado médico não resolva.
Então Jesus pegou seu jaleco branco, colocou uma máscara para esconder a barba, vestiu um óculos Ray-Ban e desceu à Terra.
A fama de um novo médico espalhou-se rapidamente. Disfarçado, Jesus atravessou a UPA, acomodou-se no consultório e chamou o primeiro da fila.
Era um homem paralítico, enfermo e em cadeira de rodas havia 38 anos.
Jesus olhou para o homem, de expressão sofrida, e disse:
— Levante-se, pegue sua cadeira e ande.
O paralítico levantou-se, dobrou a cadeira, colocou-a debaixo do braço e saiu andando.
Ao deixar o consultório, todos os que aguardavam na fila perguntaram:
— Então, nos diga… o novo médico é bom mesmo?
O ex-paralítico respondeu:
— Que nada… é a mesma coisa dos outros médicos. Nem tocou em mim!