Sarau Literário

CRÔNICA DE BOTECO (sobre política local)

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  • Por Israel Silveira

No boteco da esquina, onde o copo sua mais que candidato em debate e a fritura estala como promessa de campanha, a política local é assunto obrigatório — junto com o preço da gasolina e o resultado do último jogo.

O Bar do Zé não tem púlpito, mas tem balcão. E é ali que nascem as análises mais afiadas da cidade.

— Esse ano vai mudar tudo! — anuncia o Toninho do Táxi, batendo o copo como se estivesse assinando decreto.

— Vai nada! — rebate o seu Dito, aposentado profissional em reclamar. — Muda o nome, muda a foto, mas a rua continua esburacada.

A política municipal é assim: começa no asfalto e termina no prato do dia. Se o posto de saúde atrasa, a conversa esquenta. Se a coleta de lixo falha, o assunto vira prioridade nacional. E se aparece obra nova, sempre tem quem diga que é “coisa de eleição”.

No boteco, ninguém é cientista político, mas todo mundo entende de prefeitura.

Tem o especialista em orçamento público — que nunca viu um balanço, mas garante que “dinheiro tem, só não sabe onde foi parar”. Tem o estrategista eleitoral, que prevê vitória baseado na quantidade de adesivo nos carros. E tem o filósofo do copo meio cheio, que acredita que “pior não fica”. Embora, na eleição passada, tenha ficado.

A política local tem essa proximidade perigosa: o vereador é primo do cunhado do amigo do vizinho. O secretário estudou com você. O prefeito já pediu fiado no mesmo bar. Aqui, a democracia tem rosto, sobrenome e, às vezes, dívida pendurada no caderninho.

Mas entre um gole e outro, surgem verdades desconcertantes.

— Sabe o que falta? — diz a dona Cida, que vende pastel na feira e escuta tudo. — Falta o povo acompanhar depois que vota.

Silêncio breve. Só o tilintar do gelo no copo.

Porque no boteco, todo mundo critica. Mas na audiência pública, quase ninguém aparece. No dia da votação, alguns ainda perguntam em quem o outro vai votar. E depois, claro, voltam para o balcão reclamar do resultado.

A política local é o espelho da cidade. Pequena nas distâncias, enorme nas paixões. Mistura amizade com disputa, promessa com memória curta. E no fim, o que fica mesmo é a esperança — essa teimosa — de que “agora vai”.

O garçom limpa o balcão. A conversa muda para futebol. Mas só até alguém lembrar do novo projeto da Câmara.

— Vocês viram aquilo?

E lá vamos nós de novo.

Porque no boteco da esquina, a política nunca fecha a conta. Ela fica ali, aberta — como a aba do fiado — esperando a próxima rodada de opinião.

E no fundo, entre risadas e indignações, talvez seja ali que a democracia respire melhor: no debate imperfeito, no exagero, na crítica sincera.

Desde que, claro, alguém pague a conta no final.

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