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Saudações generosas

Juliano Azevedo

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Na praça principal da cidade, na capital, os amigos caminham na calçada, por recomendação médica e em prol da estética corporal. Diariamente, após o expediente, são seis voltas, durante uma hora, de seis a sete quilômetros, no trote de acordo com a disposição da dupla: um homem e uma mulher. O visual é a igreja católica em formato arquitetônico de chapéu, dedicada a Nossa Senhora de Fátima, ternos e tailleurs dos escritórios e dos assessores políticos que trabalham com deputados, outros atletas amadores, mocinhas com cachorros peludos, o barulho do rush, as crianças e os perigos do parquinho. Malhados, musas, gordinhos, magricelas. Idades variadas. Olhares se cruzando com velocidade.

Com tanta gente indo na mesma direção, ou vindo na oposta, ocorrem tropeços, esbarrões, piscadas, xavecos. Afinal, a caminhada noturna está cheia de intenções. Fôlegos maiores acabam fazendo ultrapassagens naqueles que preferem a lentidão dos pés. Escuta-se de tudo: foi mal; falou; desculpa aí véi; perdão aí princesa. Normalmente, o agradecimento tradicional: obrigado. Foi assim por vários meses, até duas jovens cruzarem o trajeto dos amigos pedindo licença, algo muito incomum nesses tempos e naquela calçada. Eles se afastaram abrindo espaço. Uma balbuciou obrigada. A outra deu ênfase: gratidão. Entreolharam com a novidade. A atitude da jovem grata se transformou em debate.

Dizer obrigado é quase um milagre entre os seres humanos. Solicitar licença, por favor, bom dia, entre outros cumprimentos, é raridade, como prega a boa etiqueta. Pedir a benção para os parentes com alguma hierarquia é prática em pouquíssimas famílias. Crianças ficam até envergonhadas de “dar a mão” para os avós e tios. Entende-se que pode ser um costume entre os católicos que está ficando ultrapassado, mas faz falta um pouquinho de gentileza, não é mesmo? Logo, se alguém disser “gratidão”, realmente, é de se estranhar o comportamento.

A história entrou na pauta de discussão na mesa do bar. Quem estava envolvido acredita que usar gratidão como forma de agradecimento está virando clichê, uma banalidade, um uso incorreto da palavra. Sobretudo, o sentimento que ela representa está virando chacota. Uns defenderam que isso é papo dos esotéricos, dos místicos, dos tilelês – uma espécie de hippies contemporâneos –, que falam gratidão a tudo. Uma turma não via problema em usar sinônimos para substituir um obrigado verdadeiro e que gratidão é a resposta a uma gentileza muito maior do que a esperada. O dicionário confirma: “reconhecimento de uma pessoa por alguém que lhe prestou um benefício, um auxílio, um favor etc.; agradecimento”.

Gratidão é necessária quando a verdade está expressa na intenção. Gratidão não é obrigação e ninguém deve usar desse sentimento para cobrar favores em troca. Se fez algo, que seja por afeição e de coração. A vida se encarregará de retornar a gentileza. Certamente, será agraciado com dádivas inesperadas. E a caminhada pode ser mais leve, serena, sem tropeços nem empurrões. Seguindo o fluxo da bondade e da lei do retorno. Assim é.

E você? Já foi grato hoje?

JULIANO AZEVEDO, é Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta, Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos - www.blogdojuliano.com.br - E-mail: julianoazevedo@gmail.com - Instagram: @julianoazevedo

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