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O ovo quebrado!

Juliano Azevedo

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Quando aprendem a construir frases, as crianças começam a tagarelar e a questionar o mundo. Entendem que as perguntas abrem portas para o conhecimento. Por volta dos três, quatro anos de idade, elas são despertadas pela curiosidade e usam e abusam das dúvidas.

Muitos pais se irritam, acham que os filhos se excedem, mas essa é a fase da infância para a construção da própria identidade. Por isso, é preciso ter cuidado com o que se fala a elas. Com um universo pequeno de referências, as crianças podem ter interpretações diferentes da esperada do emissor da mensagem. Algumas situações provocam histórias engraçadas, como o caso da avó com suas netinhas.

A matrona da família possui algumas aves poedeiras, ninhos espalhados pelas árvores frutíferas e um galo reinando e comandando a frequência de quem bota no quintal. O galináceo garante meia dúzia de ovos por dia, para uso no desjejum e nas dietas milagrosas, nos pratos do almoço e nas quitandas servidas com o cafezinho mineiro ao longo das visitas cotidianas. Ela também tem duas netas, uma de sete e outra de cinco anos, com suas perguntas curiosas e suas espertezas.

As meninas querem ajudar em tudo: lavar vasilha, fazer suco, arrumar os brincos, separar as roupas, usar os sapatos, viajar imaginariamente com as malas da casa.

A avó, orgulhosa, corujona, participativa no desenvolvimento criativo das netas, vibra com o que elas aprontam. Juntas, elas inventam brincadeiras, jogam baralho, assistem a todos os desenhos repetidos na televisão, dividem o celular, ora usado para vídeos do Youtube, ora para vídeos do WhatsApp.

Na hora da visita ao galinheiro, animadas, percorrem os ninhos recolhendo a produção caseira do dia. A mais nova arruma o cabelo, balançando os cachos para trás, certa que encontrará um tesouro no mato. A de sete anos é mais criteriosa, analítica, aponta o dedo certeiro para onde os ovos estão escondidos.

Certa vez, a menorzinha quis carregar os ovos na camiseta dobrada, estilo uma capanga, presa pelos dentes. Encontraram a mesma meia dúzia garantida pelo galo. Porém, por um tropeço, um dos ovos caiu e quebrou. Sem graça, dirigiu-se à avó pedindo desculpas com um olhar arrependido.

Ela disse que não tinha problema e relembrou uma história de sua primeira gravidez. Contou às netinhas: quando eu estava grávida do seu tio mais velho, barriguda, faltando alguns dias para os nove meses serem completados, deixei uma caixa de ovos cair no chão. Todos quebraram. No outro dia, fui parar no hospital e o bebê nasceu.

As netas ficaram desconfortáveis e se entreolharam. Uma fumacinha quase apareceu de suas cabecinhas. Aparentaram nervosismo e ficaram mudas. Não havia sorriso de nenhuma delas. Muito menos sinal de choro. Mas a avó percebeu uma certa apreensão após o relato das antigas.

A de sete anos suspirou profundamente, demonstrou coragem e fez a pergunta: “Vovó o que acontecerá com a minha irmã amanhã?”

O ovo quebrado permaneceu em silêncio! Despreocupado. Não precisava se intrometer naqueles porquês…

JULIANO AZEVEDO, é Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta, Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos - www.blogdojuliano.com.br - E-mail: julianoazevedo@gmail.com - Instagram: @julianoazevedo

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