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A bola da vez é a venda de ingressos para o céu. Quem vai querer?

Léo Junqueira

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Dona Therezinha é uma senhora de 88 anos. Vive em Belo Horizonte com a pensão do falecido marido e, como milhões de brasileiros, equilibra as finanças da casa como quem faz o mesmo com taças de cristal numa bandeja e montada no lombo de um burro.

Nas palavras dela, os dias se parecem muito numa rotina quebrada por alguns telefonemas de sua irmã, de amigas de “velhos tempos” ou ligações de entidades filantrópicas pedindo ajuda.

Dona Therezinha tem a paciência proporcionada pela experiência da vida, mas ultimamente vem enfrentando um problema de tirar do sério qualquer monge tibetano: é o excesso de pedidos por dinheiro para ajudar a todo tipo de causa. Ora é para um asilo, ora para doentes terminais e em muitos momentos não existe uma explicação justificável, mas mensalmente ela chega a receber dezenas de pedidos.

Cansada dos assédios telefônicos, Dona Therezinha elegeu uma instituição séria (o Hospital da Baleia), para sua colaboração mensal. Sua opção precisa ser dita quase todos os dias aos incansáveis pedintes, que ligam todos os finais de mês e início de outro.

Ouvindo suas reclamações comecei a acompanhar de perto as abordagens cuidadosamente estudadas pelos ditos representantes das instituições. Minha gente, chega a ser hilário os argumentos! Cada um apresenta seu argumento de forma cada vez menos criativa e mais truculenta.

Primeiramente, suponho que todos saibam que se trata de uma senhora idosa de mais de 80 anos. As explicações e motivos são praticamente os mesmos e Dona Therezinha tem dificuldades de dizer um simples, “não”.

Fico pensando uma forma de entender mais sobre essa nova indústria tão efetiva quanto qualquer outra: a indústria da caridade. Tem gente, que ouvindo como resposta que Dona Therezinha não estará em casa sugere que ela deixe o dinheiro embaixo da porta, para que o cobrador não perca a caminhada. E ainda fala com firmeza, que o recibo será deixado no mesmo local.

Outras sugerem que ela passe os dados do cartão de crédito ou débito para facilitar e outros, mais ousados, dizem que ficarão à espera na portaria ou local próximo… Mas só podem esperar até determinado horário, para que ela se apresse.

Ouvindo e conversando com uma destas insistentes “agentes da caridade”, escutei o absurdo de que a contribuinte estava garantindo bênçãos pelo ato de ajudar os outros. Tentei contestar falando que uma senhora de 88 anos não precisava comprar ingresso para o céu, já que a vida que teve criando sete filhos já lhe garantia a passagem de primeira classe e hospedagem Vip no paraíso.

Bem, meus amigos. Resolvi escrever sobre esse assunto como uma denúncia. É evidente que existem instituições sérias e comprometidas com a ajuda essencial aos necessitados. Penso que devemos ajudar, colaborar e participar de ações como essas sabendo que nossos governantes deixam muito a desejar.

Mas percebo que o descaso do governo permite, que atividades em nome de Deus e credos acabem alimentando a “sacanagem” com pessoas de boa fé, como a Dona Therezinha, que muitas vezes doa o dinheiro destinado a outros compromissos caseiros.

Todos nós já tivemos uma experiência de receber pedidos para doação à caridade por telefone, mas poucas vezes nos preocupamos em saber se estamos agindo certo ou errado.

Por isso, antes de colocar sobre os ombros dos políticos corruptos ou corruptores de plantão tal responsabilidade, precisamos repensar nossas atitudes, pois podemos estar alimentando um processo nocivo em benefício de vagabundos, com seus ingressos pagos, apenas de ida pro quinto dos infernos.

Precisamos aprender lições sobre a vida e sobre nossa fé. A espiritualidade não precisa de dinheiro, não carece de riquezas. A espiritualidade quer de nós apenas a compreensão, o perdão e a gratidão. Dona Therezinha está aprendendo, aos 88 anos, que podemos ajudar ao próximo com um sorriso, uma visita ou apenas com a consciência humana… E que os erros se repetem até que aprendemos a lição!

PS: Dona Therezinha é uma pessoa mais que querida, pois mostra todos os dias seu espírito de adolescente quando recebe em sua casa, os filhos, netos e bisnetos para um joguinho de baralho ou um piano bem tocado, distribuindo gratuitamente a todos o afeto e carinho de uma pessoa mais que especial: ela é minha mãe!

LEONARDO VELOSO JUNQUEIRA é daqueles publicitários da época romântica, quando a comunicação ainda era feita com base no talento criativo. Foi sócio fundador da Insight Comunicação durante 22 anos prestando serviços de comunicação e marketing a grandes empresas, como Pastifício Santa Amália, Riclan (fabricante do Pircóptero e drops Freegell’s), Cera Inglesa, Calçados Jacob (Kildere), Café Brasil, Balas Santa Rita entre outras grandes empresas que fizeram histórias de sucesso. Trabalhou em grandes agências de publicidade em Minas e na área política, como publicitário, assessorou as prefeituras de Uberlândia, Varginha e Divinópolis além de desenvolver e coordenar inúmeras campanhas políticas, das quais destacamos a eleição de Zaire Rezende (Uberlândia), Maurinho Teixeira (Varginha), Paulo Tadeu (Poços de Caldas), Galileu Teixeira (Divinópolis), Paulo César (Nova Serrana), Toninho André (São Gonçalo do Pará) além de vários deputados estaduais e federais. Léo Junqueira é consultor de marketing, compositor, violeiro, escritor e colunista do Jornal O Popular

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